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20/03/2007 10:18
Largo de São Pedro Frei Gonçalves - Varadouro. Foto: ©Guy Joseph
Terra de ninguém
Petrônio Souto*
Não é puxando brasa para a nossa sardinha, mas poucos lugares do mundo são tão belos quanto o Centro Histórico de João Pessoa, patrimônio que, em relação a muitos outros, leva uma grande vantagem: O sítio original da cidade, a nossa capital inicial, é uma área pequena, já legalmente delimitada, portanto distrito que possui limites e confrontações, como a Cidade do Vaticano dentro da Cidade de Roma.
Começo a admitir que João Pessoa abriga duas cidades: Havana e Miami, e o Mar do Caribe começa na Maximiano de Figueiredo. A Epitácio Pessoa e a Beira-Rio são as duas principais pontes que ligam nossas duas capitais. Na orla, nesses tempos globalizados, encontramos o modo de vida norte-americano, com seus novos-ricos, suas naturais extravagâncias e seus carrões turbinados. Já entre a Lagoa e o Rio Sanhauá, nos sentimos naturalmente em Havana Velha, até porque as duas cidades são do Século XVI.
Mas aí, quando fazemos a inevitável comparação, vem logo a pergunta: por que os cubanos valorizam tanto seu sítio histórico e se excedem nos esforços para conservar Havana Velha, apesar de todas as dificuldades que enfrentam, inclusive fenômenos naturais como os devastadores furacões? Bom, pobreza há e muitaaqui e na terra de Omara Portuondo. Agora, o que não existe por lá e parece sobrar por aqui é a ignorância.
É preciso muita ignorância para não perceber que o nosso Centro Histórico é ouro em pó, e que, embora necessitados, estamos desperdiçando uma grande oportunidade de fazer receita, tão somente porque não cuidamos um pouco mais do nosso valioso patrimônio histórico e artístico, o que não ocorre na Isla Mayor do Caribe. Lá, muito ao contrário, respaldando o turismo, a conservação de Havana Velha garante os dólares e euros tão necessários ao próprio sustento do país.
É óbvio que o que aconteceu em João Pessoa aconteceu, até de forma mais grave, em todas as capitais brasileiras. A inchação criou vasta periferia, sem nenhuma infra-estrutura, mas densamente povoada, o que fez com que, em pouco tempo, como, aliás, era de se esperar, a multidão de deserdados, espremida na periferia, conquistasse poder político, capacidade para eleger e derrotar prefeitos, governadores, deputados, vereadores, senadores, sobretudo os mestres da demagogia.
Qual a conseqüência imediata disso? Como a certeza da (re) eleição estava na periferia, as tais autoridades competentes viraram as costas para o Centro Histórico, deixaram ao léu o núcleo original da cidade.
Não há dúvida de que, por ser infinitas vezes mais valioso, qualquer depredação que se transforme em fato consumado, aqui no Centro Histórico, exige uma restauração mais dispendiosa, mais vagarosa, mais complicada, o que não acontece com as agressões em áreas recentes, onde o conserto é sempre mais fácil, mais rápido, menos oneroso.
Assim, o Centro Histórico, coitado, foi se deteriorando rapidamente, desmoronando, virando entulho. Esvaziado, sem voz e sem voto, sem poder político para nada, o Centro foi sendo passado para trás, foi ficando para depois, durante sucessivas administrações, ao longo de várias décadas.
Estamos carecas de saber que o Centro Histórico da Capital precisa ser restaurado, revitalizado, mas, enquanto dona revitalização não vem, é preciso maior vigilância, maior fiscalização por parte dos vários organismos oficiais responsáveis pela sua proteção. O governo, todos os governos (a responsabilidade não é exclusiva da Prefeitura), devem estar bem mais atentos, devem se mostrar bem mais interessados e eficientes na tarefa de conservar o que ainda resta da nossa capital inicial. Precisamos evitar maiores estragos ao nosso valioso patrimônio. A coisa está excessivamente frouxa, virando perigosamente terra de ninguém. Basta viver o cotidiano do centro da cidade para testemunhar os desmandos.
São invasões de terrenos e prédios públicos; obras clandestinas executadas a portas fechadas e fora do horário normal --à noite, de madrugada, em dias não úteis, visivelmente para escapar de qualquer tipo de fiscalização e criar o famoso fato consumado; imóveis mantendo apenas resquícios da antiga fachada para encobrir estacionamentos privados; edificações importantes que são abandonadas até o completo desmoronamento por herdeiros de antigos donos, muitos já falecidos ou residindo em outros estados; gatos e ligações de esgotos na rede pluvial; colocação de telhas de amianto ou alumínio, destruindo belas coberturas, além das péssimas condições sanitárias e de segurança, entre outros problemas que se multiplicam com a certeza da impunidade e crescem no vácuo da omissão e da incompetência dos poderes públicos.
O prefeito Ricardo Coutinho produziu avanços significativos. A liberação das calçadas foi uma contribuição inestimável. A restauração de alguns casarões da João Suassuna para transformá-los em condomínios populares é outra jogada de mestre do jovem prefeito. Mas a grande verdade é que a depreciação acelerada precisa ser contida, mais depressa do que rapidamente, senão, quando surgirem recursos, quando aparecerem os meios necessários para um trabalho conseqüente, abrangente, de revitalização, simplesmente não haverá mais Centro Histórico. A cidade toda terá virado uma imensa periferia. Aí, como herdeiros perdulários, teremos dado fim à botija deixada pelos nossos antepassados.
*Petrônio Souto é jornalista e colaborador do Via Parahyba
enviada por Guy
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