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18/03/2007 21:13
Fonte dos Milagres, de Santo Antônio e Tambiá. Foto: ©Guy Joseph
A Bica dos Milagres
Petrônio Souto*
Não tem erro: Final da Ladeira São Francisco, entrando à esquerda: Rua Augusto Simões (antigo Beco dos Milagres), nº 59. No muro da casa está incrustada uma relíquia da cidade: A Bica dos Milagres.
Talvez os atuais proprietários nem saibam o que têm nas mãos. Era da Bica dos Milagres, no sopé da colina onde se erguia a cidade de Nossa Senhora das Neves, que os colonizadores retiravam água doce para beber. Mas o que resta de um dos patrimônios históricos e artísticos mais valiosos da Paraíba é quase nada: uma espécie de moldura em pedra calcária com formato que denuncia sua origem e uma data 1849, ano da última restauração.
Segundo o historiador Wellington Aguiar, além das cacimbas, quatro bicas ou fontes garantiam o abastecimento d´água da cidade: Gravatá e Milagres; Santo Antônio e Tambiá.
A Bica de Gravatá, de uma beleza extraordinária, atualmente não passa de uma fotografia ilustrando o livro Roteiro Sentimental de Uma Cidade, de Walfredo Rodriguez. Ninguém informa sua localização exata. A triste realidade é que ela foi destruída e está soterrada em algum ponto do Varadouro.
Na Bica dos Milagres, a água jorrou até o final dos anos 70, começo dos anos 80, quando foi quase que totalmente destruída a golpes de marreta e emparedada, pelo menos é o que afirmam antigos moradores do lugar. Muito recentemente, o muro foi pintado, o que dificulta mais ainda a observação dos vestígios. De quebra, os proprietários de oficinas mecânicas que se instalaram em um terreno baldio, ao lado, colocaram o WC, sem ligação para a rede de esgotos, quase que colado à fonte, atitude que bem demonstra a ignorância dos donos das oficinas e o descaso das autoridades.
Esta Bica ganhou notoriedade por ter sido palco do famoso Crime do Frade. Conforme relato de Wellington Aguiar, junto à fonte, o Frei José de Jesus Cristo Maria Lopes, ajudado por dois comparsas, matou por empalação sua amante Tereza, dominado pelo ciúme. O bárbaro crime ocorreu na madrugada de 31 de julho de 1801 e estarreceu a pequena Capital. Frei José de Jesus Cristo era franciscano e morava no Convento de Santo Antônio. Ele costumava banhar-se com Tereza, alta noite, na Bica dos Milagres.
Já a Fonte de Santo Antônio, no sítio do Convento de Santo Antônio, foi restaurada há alguns anos, apesar de a boca do golfinho, de onde jorra a água cristalina, encontrar-se seriamente danificada, exigindo urgentes providências do IPHAN.
Finalmente a Fonte de Tambiá, a que poderia estar mais protegida por pertencer ao Parque Arruda Câmara, apresenta-se também com sérios problemas de conservação.
É revoltante o desapreço pelas coisas da nossa memória. Outro dia, conversando com pessoas que se diziam interessadas na revitalização do Centro Histórico, fiquei chocado: Ninguém ouvira falar na Bica dos Milagres, muito menos nas Fontes de Gravatá, e todos me olhavam como se estivessem diante de um lunático.
A restauração da Bica dos Milagres, a primeira fonte que deu de beber a esta cidade, não seria uma despesa fora do comum, impossível de ser custeada pelo Poder Público. Com a mais absoluta certeza, creio que se gastaria muito menos do que se gastou, faz pouco tempo, com a divulgação do último racionamento d´água em nossa Capital.
Como se fala muito em ações para fortalecer o turismo, a restauração da Bica dos Milagres e da Fonte de Tambiá, as mais danificadas, poderia contribuir para o surgimento de um produto turístico da melhor qualidade: O Caminho das Águas, aliás, idéia do padre Ernando Teixeira de Carvalho, ex-diretor do Centro Cultural São Francisco. É que, percorrendo a Gouveia da Nóbrega, no Róger, o turista visitaria as três fontes, que se localizam praticamente no começo, no meio e no fim da avenida. Uma grande justificativa econômica para um investimento irrisório.
O problema, o maior problema, é que a ignorância e a insensibilidade dos nossos homens públicos e da própria população estão transformando em ruínas o Centro Histórico da terceira cidade mais antiga do Brasil.
*Petrônio Souto é jornalista
enviada por Guy
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