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11/03/2007 09:12
Do Dezoito Andares, a vista panorâmica do Sanhauá. Foto: ©Guy Joseph
O DEZOITO ANDARES
Petrônio Souto*
Ninguém saberá responder aonde fica o Edifício Presidente João Pessoa. Nem mesmo o mais antigo morador da Cidade. Mas o Dezoito Andares... A grande verdade é que todo mundo concorda num ponto: É o prédio mais charmoso da cidade ou o condomínio mais antigo da capital, como, orgulhosamente, faz questão de colocar no papel timbrado o síndico Paulo Sérgio, cidadão que aqui chegou ainda adolescente. Outra unanimidade: É uma das coberturas mais deslumbrantes do litoral, com uma visão de 360º que deixa de queixo caído até os que já conheceram a Torre Eiffel.
Os historiadores dirão que é um endereço nobre: Rua Nova, atual General Osório, esquina com a Ladeira dos Pedroza, que também já foi Ladeira da Carioca, até se juntar ao Beco da Misericórdia para receber a nova denominação: Peregrino de Carvalho.
Acho que foi exatamente este ponto da Capital que encantou o carioca Ulisses Burlamaqui, um dos integrantes do movimento da moderna arquitetura, quando, contratado pelo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários-IAPB, em 1957, sobrevoou a cidade para definir o local da primeira experiência de habitação multifamiliar em altura da cidade de João Pessoa.
Gostaria de ter conhecido o Dr. Burlamaqui, não pelo fato de alguns dizerem que ele era um típico playboy carioca dos anos dourados; homem bonito, culto, extremamente elegante. Gostaria de estar ao lado dele, no teco-teco fretado ao Aeroclube, para ver o que ele sentiu no momento da escolha deste lugar.
Quem mora no Dezoito Andares logo fica convencido do seguinte: O arquiteto construiu camarotes para que as pessoas, ocupando ambientes confortáveis e ventilados, pudessem contemplar tranquilamente uma bela paisagem. Paisagem que, como um caleidoscópio, nunca cansa, nunca cai em monotonia, porque muda de acordo com as variações do tempo e da luz. Já na entrada do apartamento, ele colocou uma parede fora de esquadro, para que, ao abrir a porta, o visitante possa sentir o forte impacto do visual extraordinário.
Dr. Ulisses Burlamaqui foi mais fundo na sua viagem: Empilhou 48 apartamentos, vazados na frente e nos fundos (o vazamento é total na frente), solução que traz para dentro dos imóveis a paisagem exterior, formando imensos painéis, o que deixa os moradores com a sensação de que vivem pisando nas nuvens. Avançou mais em seu sonho: Fez as varandas com as mesmas dimensões, quase 20 metros quadrados, independentemente do tamanho do apartamento. A paisagem foi, digamos, democratizada, até para que todos pudessem curtir igualmente o pôr-do-sol e a lua cheia.
Não jogou a dependência de empregada em uma sobra de espaço qualquer. Traçou cuidadosamente os aposentos da empregada, que são amplos, agradáveis, com total e absoluta privacidade. Há outras bossas no prédio, como escadarias largas, com pouquíssima inclinação e degraus espaçosos, onde as pessoas podem subir e descer, conversando ou conduzindo volumes, tranquilamente. A área de lazer é um enorme tapete entre a plataforma e o setor residencial. O elevador serve simultaneamente a dois pavimentos, reduzindo o consumo de energia, o desgaste do próprio equipamento e fazendo com que as pessoas, mesmo as mais velhas, possam se exercitar sem grande esforço físico. No entanto, uma dessas bossas foi para mim amor à primeira vista: O longo corredor entre os elevadores dos dois blocos recebe uma luminosidade natural que o transforma no túnel do tempo do Congresso. Fantástico!
O que permanece uma incógnita é o destino da garagem, mistério que até hoje não foi desvendado. Sabe-se apenas que existe ampla área ociosa, dando para a Praça Aristides Lobo, sobre a qual o condomínio não tem mais nenhuma ingerência e, tanto o Patrimônio da União como a Prefeitura, ainda não chegaram a um acordo sobre a sua utilização. Comenta-se que nela pode vir a ser instalada mais uma Farmácia Popular. Enquanto nada é resolvido, a terra de ninguém serve de pousada para vagabundos e moradores de rua, causando transtornos de toda espécie à comunidade aqui residente.
Torci o nariz quando me ofereceram um apartamento neste prédio de tantas histórias, alegres e trágicas, como tudo na vida. Enfrentei o samba de uma nota só dos agentes do mercado imobiliário: Seu Petrônio vá para a orla. O centro acabou-se, virou um lixão. Acontece que vim conhecer a nova morada ao pôr-do-sol. Não resisti. A amiga Vitória Lima não exagerou ao afirmar que eu não comprei um apartamento, mas uma paisagem.
Sem exagero, posso dizer que sonho acordado. Deitado em minha cama vejo o Sanhauá rio triste, que parece estar sempre indo à procura de alguém distante... O contraponto é feito pelas garças. Numerosas, se exibem cheias de juventude, como as meninas do Colégio das Neves. Vagueiam em bandos ou solitárias. São lençóis brancos, esvoaçantes, sobre o casario e o manguezal. Às vezes penso que são anjos enviados por Deus para limpar, todos os dias, a sujeira do esquecido Varadouro, numa espécie de protesto pacífico contra a omissão dos homens.
Menino da Rua da República, Rua da Areia e do velho Roggers, com alguns quilômetros rodados nesses quase 60 anos de vida, penso que escolhi o lugar certo para amarrar o burro na sombra. Aqui, me refugio nas minhas doces lembranças e me sinto protegido pelos meus mortos, figuras que tinham a maior intimidade com essas ruas, becos e ladeiras.
*Petrônio Souto é jornalista
enviada por Guy
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