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07/07/2006 19:36
Tudo começa na pelada. Foto: ©Guy Joseph
JÁ CHOREI POR FUTEBOL
Petrônio Souto
Nasci em João Pessoa, mas abri os olhos em Alagoa Grande, onde meus pais trabalhavam. Tomei gosto pelo futebol vendo o Tabajaras de Alagoa Grande jogar, ainda nos anos 50. O campo do Tabajaras ficava por trás do Colégio de Padre Hildon, na parte alta da cidade, mas a lagoa completamente seca foi o palco do primeiro jogo de futebol que assisti. O Tabajaras era o bicho-papão do Brejo, tão bom quanto o América de Esperança, o Confiança de Sapé ou o Vila Nova de Itabaiana.
Quando a família veio definitivamente para a Capital, em 1956, virei torcedor do Auto Esporte. É que Seu Salviano, senhor alto como um jogador de basquete, construtor, amigo de papai, que também morava no Roggers, era, se não estou enganado, um dos colaboradores do clube dos motoristas, e o velho me deixava ir com ele para o Estádio Olímpico ou para o Campo da Graça, a fim de assistir aos jogos do Auto.
Esta era a escalação dos anos dourados do Auto Esporte Clube: Agostinho, Ní e Kleber; Marajó, Américo e Negrinho. Na frente, me lembro de Macau, na ponta direita, e Piau, na ponta esquerda. Acho que Delgado era o centro-avante do Auto. Esse cara, esguio e narigudo, elegante como um bailarino, jogava como um Zidane. Foi vendido para um grande clube do futebol paulista, mesmo caminho de Bola Sete e Pedro Neguinho, a dupla Pelé-Coutinho da Paraíba.
Sabia também os nomes dos meias do Auto Esporte. Um deles era China, sujeito sereno, caladão, só falava -e muito bem- com os pés. O outro meia... Chicletes (o velho)? Romero? Meu Deus, a memória já não responde! Sabia de cor e salteado a escalação do Auto, em várias fases do time. O problema é que a memória começa a pifar e a gente não tem mais a quem recorrer.
Esse é o drama do envelhecimento: Não ter a quem recorrer para reavivar a memória. Não se pode mais trocar impressões com parentes e amigos sobre as coisas da vida. Os contemporâneos vão desaparecendo e a gente vai ficando feito um ET no meio da multidão. Estaria aí a explicação para o silêncio e o olhar perdido dos velhos.
A Paraíba é um celeiro de extraordinários jogadores de futebol, muitos com passagem por grandes equipes do Brasil e do exterior e até pela Seleção Brasileira. Mas são escassos os registros da história do nosso futebol. Há apenas um livro do velho Normando Filgueiras, se não me falha a memória. Recentemente, um rapaz de Campina Grande andou lançando algo sobre o tema. Não sei se o trabalho dele se restringe ao futebol paraibano.
Bem que o cronista Marcus Aurélio, meu colega de faculdade, um dos maiores nomes do rádio esportivo paraibano, poderia escrever alguma coisa. Ele tem muito a dizer. Suponho que Marcus esteja esbanjando saúde. Outro dia tive um encontro casual com ele e sua esposa, no centro da cidade.
Tanto Marcus Aurélio, que, aliás, é irmão do saudoso Marconi Altamirando, quanto Ivan Bezerra e Geraldo Cavalcanti precisam deixar algo escrito. Eles são a memória viva do futebol paraibano. Martins Neto e Ernani Norat já se foram, infelizmente.
Marcus Aurélio era o homem do Arquivo de Recordações, histórias do nosso futebol que eram contadas em narrativas emocionantes, com trilha sonora de novela, nas tardes esportivas da Rádio Tabajara. Basta Marcus Aurélio abrir o baú para sair um grande livro.
Como todo adolescente do começo dos anos 60, torcia pelo Botafogo carioca e pelo Santos de São Paulo. As seleções campeãs do mundo de 58 e 62 foram praticamente a fusão desses dois times. Lá atrás, o Botafogo tinha o paredão Manga, fechando a trave; Nilton Santos, a enciclopédia do futebol, e o vigoroso Rildo.
Na frente, a linha que nunca vou esquecer: Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo. Garrincha, meu eterno ídolo. Ninguém (nem Pelé!) pode ser comparado a Garrincha. Mané era um ser único, jogador realmente fora de série. Nunca, jamais, em tempo algum aparecerá alguém como ele.
Já no Santos, além do goleiro Gilmar, do zagueiro central Mauro, que levantou a taça de 62, no Chile, e do meia Zito, a famosa linha do time de Vila Belmiro infernizava a vida dos adversários: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Quando Botafogo e Santos se enfrentavam eu rezava para que desse empate.
Fui tão apaixonado por futebol que chorava todas as vezes que o Botafogo de Garrincha, o Santos de Pelé ou Auto Esporte de Marajó perdiam o jogo. Quem foi moleque comigo, no Roggers, pode confirmar minha fraqueza. É bem verdade que o pessoal tirava meu couro nas derrotas, me levando ao desespero.
Mas o tempo foi passando, as visões se clareando. Outro dia, disse ao amigo Rubens Nóbrega que não gastava mais minhas emoções com futebol. Disse isso, confesso, da boca pra fora, com o coração partido. Sou louco por futebol, mas despluguei totalmente porque não tenho vocação pra babaca.
Com o tempo pude perceber que os bastidores do futebol, aqui no Brasil, dão de dez a zero em uma fossa. Se o torcedor conhecesse um pouquinho do lamaçal em que opera a cartolagem, jamais teria qualquer envolvimento emocional com o futebol.
Ah, o Brasil perdeu?! O Brasil já vem perdendo seu futebol faz muito tempo.
Os irmãos Chicletes - Dedico estas mal traçadas linhas a duas maravilhas paraibanas do futebol brasileiro: José e Everaldo Morais, nascidos em Esperança. José, o mais velho, de uma geração mais antiga, já não está conosco. Everaldo continua vivo e mora em Fortaleza. Os torcedores da Paraíba deram o mesmo apelido aos dois irmãos: Chicletes. Em São Paulo e no exterior, ambos eram chamados pelo mesmo sobrenome: Morais. A genialidade com a bola nos pés era a marca registrada da dupla.
enviada por Guy
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