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01/07/2006 16:51


Grupo de Dança Popular - Côco e Ciranda do Mestre Benedito-Cabedelo

Noite de São Pedro
Petrônio Souto*

De besta só fui ao último dia, assim mesmo por insistência de amigos e da filha Petra, sempre muito empolgada com a cultura popular. Até hoje estou arrependido. Poderia ter curtido mais o São João de João Pessoa, no Centro Histórico, mas pelo menos tive uma noite de São Pedro inesquecível.

A programação foi um doce-de-coco. Pela amostra do encerramento pude entrar no clima da festa: O Coco de Roda de Mestre Benedito trouxe para os refletores do Largo de São Pedro Gonçalves algo tão grandioso quanto a Velha Guarda da Portela ou, sem exagero, os “garotos” do saudoso Buena Vista Social Club. São artistas do povo, condenados a viver na escuridão, no abandono, segregados por uma elite que não sabe o que possui, que não conhece nem valoriza sua própria terra.

Na Praça Anthenor Navarro, o impagável Biliu de Campina e seus músicos maravilhosos empolgaram tanto que a multidão não deu a menor bola pra chuva fina. Biliu, homem-show incomparável, ainda terá o reconhecimento que merece. Na turma do gargarejo, fiquei literalmente nas nuvens, vendo ao meu lado tanta gente de velhos carnavais, gente formidável, afetos de uma vida inteira.

Mas também tinha gente, gente de cara e dente nariz pra frente. Gente que a gente encontra todos os dias nas calçadas da vida, batalhando o leite das crianças e que volta e meia precisa de uma merecida pausa para recarregar as baterias.

Fechando a noite, Nando Cordel, figura simpática, compositor de grandes sucessos, que transformou a praça em um imenso coral. Por falar em praça, como tinha gente no Centro Histórico! Gente de todas as idades, famílias inteiras, algumas com suas crianças de braço. Até o quem-me-quer da Festa das Neves foi espontaneamente ressuscitado. E tudo na maior tranqüilidade, na maior harmonia.

A Prefeitura colocou “portarias” nos acessos, onde as pessoas eram educadamente revistadas. Foi montado um esquema de segurança discreto, mas eficiente, estrategicamente distribuído. A segurança da Prefeitura, como o bom árbitro de futebol, trabalhou consciente de que não poderia ser a estrela do espetáculo. A polícia estadual também marcou presença.

De quebra, havia iluminação nas redondezas. A gente podia estacionar o carro sem medo de voltar e não encontrar nada. Mais uma grata surpresa: O Varadouro estava iluminado! Resultado: Nenhuma ocorrência policial durante toda festa.

Lendo o folder com a programação, pude observar que a Prefeitura abandonou de vez as soluções super-mega-hiper e fez uma festa de São João apenas normal: Muito organizada, muito animada, muito tranqüila. De palco e platéia excelentes. O clima aconchegante das antigas festas do interior (o saudosismo é inevitável: os super-mega-hiper já contaminaram também as cidadezinhas do interior) possibilitou a volta às origens. Me imaginei numa quermesse organizada por Padre Epaminondas, em Alagoa Grande, lá pelos anos 50.

É de se supor que existe um esquema empresarial se apropriando (esse é o termo) dos festejos eminentemente populares. Alucinada por grandes lucros, essa organização interfere de maneira bastante danosa na vida simples das nossas comunidades, destruindo, criminosa e violentamente, a forma ingênua com que as pessoas manifestam sua alegria coletiva. São predadores cujo malefício ainda não foi devidamente dimensionado.

Dá para desconfiar que as “máfias” do sertanejo, pagode, axé e forró de plástico, sobretudo, aqui no nordeste, esses dois últimos gêneros musicais (???!!!), têm seus tentáculos em todos os Estados. Hoje possuem até redes de rádio e televisão. O jabá artesanal do passado agora é a massificação cruel e avassaladora. O poder total é deles. A programação musical é exclusivamente deles.

Assim, com a omissão do Poder Público, essa gente sem rosto deita e rola, faz há décadas a onipresente trilha sonora do nosso cotidiano. Trilha que está nas emissoras de rádio e tv, na festa popular, na casa de shows, nos coletivos, na barraca de sanduíche, no carro que passa, no camelô, na casa do vizinho ou na fila do supermercado. Com isso nossos melhores talentos são jogados no porão do anonimato.

Mas a “fórmula do sucesso” adotada por essa gente nada bronzeada funciona como uma espécie de anabolizante, que, além de ser uma extravagância caríssima para os cofres públicos, demonstra um total desprezo pela platéia, no frigir dos ovos, a grande vítima do “conto da alegria”.

Na verdade, sem praticar a concorrência sadia e equilibrada, tomam de assalto a cidade como batalhões israelenses invadindo a Faixa de Gaza. Passam por cima de tudo, se preocupam apenas em dominar, jamais em ganhar a simpatia da população.

Embora sem saber o que se passa na administração municipal, sinto que, mineiramente, sem estardalhaço, ela descarta essas superestruturas. Dá para imaginar, portanto, o motivo pelo qual a festa foi pouco badalada nos meios de comunicação, se restringindo praticamente aos anúncios institucionais da Prefeitura. Se fosse uma Micaroa... Transmissão integral em camarote boca livre.

Espero que esse processo de mudança para melhor da vida pessoense tenha continuidade. As pessoas devem avaliar mais calmamente este benefício imaterial, digamos assim. Gostaria de levar sempre o netinho Guilherme para as festas de rua da minha cidade. Rezo para que não voltem nunca mais aqueles eventos malucos que mais bestializam do que alegram.

*Petrônio Souto é jornalista

enviada por Guy






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