VIA PARAHYBA


Perfil




Blig Amigos

Arquivos




13/07/2006 07:56


Foto: ©Guy Joseph/06

VOU DE FUSCA
Petrônio Souto*

Do outro lado da linha a moça tenta me convencer de que devo comprar um carro do ano. Oferece mil e uma facilidades, condições que até Deus duvida. Chega ao exagero de dizer, sem jamais ter me visto sequer em sonhos, que “um cidadão como o senhor não pode deixar de andar num carro do ano”.
Ora, o que levou a gentil senhora a dizer uma coisa dessas? É certo que de posse da lista telefônica, aleatoriamente, ela deve ter ligado para minha residência, mas dizer assim de maneira tão enfática que “um cidadão como o senhor não pode deixar de andar num carro do ano”...
Bom, um fanfarrão qualquer adoraria que mesmo virtualmente uma voz feminina dissesse um disparate desses, mas para quem não tem a paranóia do carro do ano na garagem nem quer bancar pose... Sei não, acho que o pessoal do marketing está exagerando.
Na nossa sociedade, o estímulo para se gastar dinheiro é simplesmente diabólico, mas os meios para obtenção do dinheiro são limitadíssimos. Chega a ser um problema de saúde pública a pressão para que gastemos nosso dinheirinho que mal dá para as necessidades básicas.
Usam tudo aquilo que venha a empurrar o infeliz para o consumo de algum bem ou serviço, mas estão pouco se lixando para uma questão essencial: A real necessidade da despesa. O que importa é vender, vender e vender.
Por outro lado, num país em que o salário mínimo é de 350 reais anunciar um carro popular por algo em torno de 25 mil é no mínimo uma piada de mau gosto. Criam expectativas inalcançáveis nas pessoas, depois se queixam do aumento da violência...
Não quero um carro do ano, adoro meu Fusca 79. Com todo respeito aos consultores de venda, acho um insulto uma desconhecida afirmar, embora com voz de seda, que eu preciso de um carro do ano, sem que jamais tenha havido entre nós um protocolar aperto de mãos.
E vou mais além: Detesto Fórmula I, Fórmula Indy, ronco de motores, cheiro de gasolina, etc. Não considero esporte uma coisa que não passa de um laboratório da indústria automobilística. Daquele frege saem máquinas que serão estrelas nos salões do automóvel, encantando idiotas de todas as raças.
Tudo no Fusca se resolve com um pedaço de arame, um alicate e uma chave de fenda. É um carro tão popular que saiu de linha. Tem mais: O que um milionário faz com um carro possante, importado, último lançamento, eu posso fazer também com o Fusquinha. Só vou chegar um pouquinho mais atrasado. Mas, como não quero fazer uma hora em menos de uma hora, tudo bem.
O Fusca é gostoso porque ao ligar a chave, já nos primeiros metros da viagem, você se sente aboletado no vagão de uma maria-fumaça ou deslizando em um bonde elétrico pelas ruas da cidade. Você vive todo dia a fantasia de ser um privilegiado.
Tudo a sua volta é pressa, tumulto, ruído, movimentos bruscos, nervosismo, sofrimento. No Fusca, não, a gente vai tranqüilo e calmo, feliz da vida em 78 rotações. Não fossem os xingamentos dos apressadinhos alados...
Não sei o que seria de mim sem meu Fusquinha. Ah, meu Deus, não estou blasfemando, mas penso que o tal Dia de Juízo será aquele em que eu não encontrar mais peças no comércio. Aí deixarei o bichinho tomando conta da garagem e vou andar a pé. Posso até comprar um sapato novo todo ano; um carro, jamais.
Pelo andar da carruagem, melhor dizendo, pelo rasante das máquinas voadoras, meu Fusquinha tem um quê de trincheira de luta. Sem abrir mão dele, pratico a resistência pacífica de Gandhi e digo não às exigências da nossa tresloucada (des) ordem política, social e econômica. Haja o que houver, vou de Fusca. Só espero que não passem por cima de mim.

*Petrônio Souto é jornalista

enviada por Guy






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)